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O Carnaval de Rua do Rio é uma das mais antigas e potentes expressões culturais da cidade.

A tradição dos blocos cariocas é resultado de um processo histórico que atravessa séculos, continentes e gerações. Ao longo do tempo, o Carnaval se transformou, mas manteve sua essência: a rua como palco, o encontro como motor e a cultura popular como protagonista.

Das festas medievais ao Carnaval de Rua

As origens do Carnaval de rua remontam à Europa medieval, especialmente em países como Itália, França, Espanha e Portugal. Antes da Quaresma cristã, eram realizados festejos conhecidos como Entrudos, marcados por brincadeiras coletivas, uso de máscaras, inversão temporária de papéis sociais e ocupação irreverente das ruas.

Essas celebrações funcionavam como uma espécie de licença social: por alguns dias, normas morais e hierarquias eram suspensas, permitindo que a população ocupasse o espaço público de forma livre e simbólica.

A obra “Jogos durante o carnaval no Rio de Janeiro (Entrudo familiar)”, pintada em 1822 por Augustus Earle (Augustus Earle/Wikimedia Commons)

A chegada e transformação no Brasil 

No Brasil, o Carnaval de rua começou a se estruturar a partir do século XVII, trazido pelos portugueses por meio do Entrudo. Ao longo do século XIX, essa prática passou por profundas transformações. O Entrudo foi progressivamente reprimido pelas elites urbanas, ao mesmo tempo em que surgiam novas formas de organização carnavalesca.

Cordões, ranchos e sociedades carnavalescas passaram a substituir os jogos violentos por música, fantasias e desfiles organizados. O Carnaval ganhava forma, ritmo e identidade própria, acompanhando o crescimento das cidades e a consolidação da cultura urbana brasileira.

A consolidação do Carnaval de Rua no Rio

Foi no Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e o início do século XX, que o modelo moderno do Carnaval de Rua começou a se consolidar. Cordões e ranchos populares ocuparam bairros inteiros, enquanto os primeiros blocos organizados surgiam com nome, repertório, trajeto e identidade próprios.

A partir da década de 1920, as escolas de samba passaram a integrar esse ecossistema carnavalesco, reforçando o papel da cidade como centro da cultura popular brasileira. Já os blocos de rua, como são conhecidos hoje, se fortaleceram ao longo do século XX e ganharam novo fôlego a partir dos anos 2000, com o crescimento massivo do Carnaval de Rua carioca.

Blocos que atravessam gerações

Entre os símbolos dessa continuidade está o Cordão da Bola Preta, fundado em 1918. Considerado o bloco mais antigo do Rio de Janeiro, o Bola Preta desfila tradicionalmente no sábado de Carnaval e reúne multidões no Centro da cidade. Criado por Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido como Kaverinha, o nome surgiu a partir da imagem de uma mulher vestida de branco com bolas pretas, tornando-se um dos ícones mais reconhecíveis do Carnaval carioca.

Fundado em 12 de dezembro de 1956, em um botequim no bairro do Catumbi, o Bafo da Onça também integra o grupo de blocos que atravessaram gerações. Tradicionalmente associado ao Centro do Rio, o Bafo da Onça mantém viva a estética dos antigos cordões carnavalescos, preservando marchinhas, fantasias e o espírito irreverente do Carnaval de rua.

Outro exemplo de longevidade é o Cacique de Ramos, criado formalmente em 20 de janeiro de 1961. Nascido no subúrbio do Rio, o bloco se consolidou como referência cultural e musical, com forte ligação com o samba e com a formação de artistas que marcaram a história da música brasileira. O Cacique se tornou símbolo de resistência cultural e de valorização das raízes populares.

Tradição como prática viva

Foto: Bloco de rua no centro do Rio de Janeiro, década de 1950. Marcel Gautherot/Acervo Instituto Moreira Salles.

Enquanto o Rio celebra seus 461 anos em 2026, o Carnaval nas ruas da cidade soma mais de um século de história contínua. Essa trajetória foi marcada por tensões, disputas e transformações, mas também por encontros democráticos que misturam pessoas de todas as idades, origens e histórias em torno da mesma celebração.

A permanência desses blocos demonstra que tradição não é repetição estática. É transmissão, adaptação e pertencimento. Ao atravessarem gerações, os blocos mantêm viva a memória do Carnaval de Rua e reafirmam o papel da festa como patrimônio cultural, social e afetivo da cidade.

O Carnaval de Rua do Rio segue sendo construído ano após ano, geração após geração — sempre com a rua como cenário e o encontro como essência.

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