Bangalafumenga retorna ao Aterro com multidão e Charanga Talismã leva cortejo latino-americano às ruas de Vila Kosmos.
Neste domingo, a Praça XV, no Centro do Rio, se transformou em um grande salão a céu aberto, com a realização do tradicional baile do Cordão do Boitatá. Inspirado nos antigos bailes populares, o evento reuniu uma multidão de 50 mil foliões, que dançaram e cantaram ao som de um repertório que percorreu diferentes gêneros da música brasileira. Neste ano, o baile celebrou seus 20 anos de história e integrou as comemorações do Cordão do Boitatá, grupo que saiu pela primeira vez às ruas em 1997 e é reconhecido como um dos protagonistas da revitalização do Carnaval de rua carioca.
“O Cordão do Boitatá é uma referência do Carnaval de rua carioca e um exemplo da força cultural que os blocos representam para a cidade. Eventos como este reforçam o compromisso do Rio com a valorização de suas tradições e com a ocupação qualificada dos espaços públicos”, analisa Bernardo Fellows, presidente da Riotur.
No comando da festa, a Orquestra do Cordão do Boitatá, formada por 15 músicos, conduziu o público por mais de seis horas ininterruptas de apresentação, com um repertório que reuniu marchinhas históricas, sambas, frevos, afoxés e composições autorais, em arranjos sofisticados que dialogam com a tradição e a renovação da música brasileira. “O Cordão do Boitatá é um Carnaval autônomo, sem marcas ou patrocínios. O Carnaval é uma disputa pelo direito à cidade, e o bloco representa essa conquista ao ocupar as ruas com sua própria história”, explicou Adriana Schneider, uma das fundadoras do bloco.
A apresentação contou ainda com participações de artistas e grupos convidados, como Jongo da Serrinha, Claudio Jorge, Moyseis Marques, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Teresa Cristina, Mariana Baltar, Marcos Sacramento, Beatriz Rabello, Marcelinho Moreira, Lazzo Matumbi, Maryzelia e Rita Benneditto, entre outros. Ao longo de sua trajetória, o baile já reuniu mais de 150 artistas e coletivos musicais, consolidando-se como um dos eventos mais emblemáticos do calendário carnavalesco da cidade.
A cantora Teresa Cristina relembrou essa trajetória marcada por enfrentamentos e conquistas, destacando a importância do grupo para a história cultural da cidade. “O Boitatá é um exemplo de resistência cultural. Ao longo desses 30 anos, o bloco enfrentou muitos desafios para colocar o Carnaval na rua e construiu uma musicalidade riquíssima. Pra mim, o Boitatá representa a própria história do Carnaval do Rio”, afirmou. Segunda ela, o repertório do bloco dialoga com nomes fundamentais da música brasileira, como Pixinguinha, Moacir Santos, João da Baiana, Martinho da Vila, Gal Costa e Rita Lee, reafirmando seu papel na preservação e continuidade da tradição carnavalesca.
Após interpretar “Acalanto” e “Chuva de Prata”, Teresa Cristina prestou uma homenagem a Preta Gil ao cantar “Sinais de Fogo”. O gesto repetiu o tributo feito por Ivete Sangalo durante o Carnaval na cidade, emocionando o público presente.
O músico Marquinhos de Oswaldo também celebrou a participação no Boitatá e destacou o papel do bloco na valorização das tradições culturais do Rio de Janeiro. “A alegria é muito grande de participar desse bloco. O Boitatá é uma espécie de baobá das tradições, das músicas do Rio de Janeiro. Em meio a uma cidade cosmopolita, a gente tem um porto seguro das nossas tradições, que é vir curtir o Carnaval, é vir cantar no Boitatá.”
Amiga do núcleo inicial do Cordão do Boitatá, a atriz Georgiana Góes acompanha o bloco há quase 30 anos e destaca sua transformação, de um cortejo de rua a um grande baile popular que ocupa a cidade, marcado pela música brasileira e por fortes referências afro-brasileiras. Para ela, o reconhecimento institucional recente representa uma conquista após anos de resistência, e o vínculo com o bloco segue sendo também afetivo. “Hoje é emocionante poder trazer minha filha e viver isso em família. O Boitatá carrega uma história e um legado muito fortes e merece continuar existindo por muito tempo”, afirmou.
Reconhecido como Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e agraciado com importantes condecorações culturais municipais, o Cordão do Boitatá celebra, em 2026, também os 30 anos de seu Cortejo de Rua e o retorno do desfile à região da Rua Primeiro de Março, no Circuito Preta Gil. A realização do baile deste domingo reafirmou o papel do grupo na preservação e renovação da memória musical do Carnaval, mantendo viva a tradição dos bailes populares e fortalecendo o caráter democrático da festa nas ruas do Rio.
Bangalafumenga reúne 50 mil pessoas no Aterro do Flamengo em retorno ao Carnaval
Após um ano sem desfilar, o Bangalafumenga retornou ao Carnaval carioca e reuniu cerca de 50 mil pessoas no palco “Me Encontra no Aterro”, no Flamengo. O reencontro com o público foi marcado pela força da batucada e pela energia característica do bloco, que reafirmou sua posição como um dos principais nomes do Carnaval de rua carioca.
Para Rodrigo Maranhão, músico e um dos fundadores do Bangalafumenga, a trajetória do bloco sempre esteve ligada à capacidade de manter viva a alegria ao longo do tempo. “Sustentar essa energia por tantos anos exige pausas, revisões e escolhas conscientes. Esse período recente foi importante para que o bloco pudesse olhar para dentro, entender seus caminhos e reconhecer com mais clareza sua própria identidade”, afirmou. Segundo ele, o retorno às ruas representa mais do que a retomada de um desfile, mas a reconexão com o espírito coletivo que sempre definiu o bloco.
Nos bastidores dessa volta, quem acompanhou de perto foi Gustavo Soares, produtor do bloco e folião de longa data, para quem a experiência teve um significado especial. “Eu sempre fui folião e, hoje, estar na produção do Bangalafumenga é um presentão. É a primeira vez trabalhando diretamente com o bloco, que é formado por uma galera muito alto astral e que realmente abraça o Carnaval”, comentou orgulhoso.
Em termos de identidade musical, o Bangalafumenga manteve sua essência, com uma proposta baseada na mistura de ritmos e referências da música popular brasileira, conduzida pela força da percussão. Durante a apresentação do bloco, passaram pelo palco artistas como Sérgio Loroza, Julia Vargas, Hamilton Fofão e Karinah.
A foliã Malu von Kruger acompanha o Bangalafumenga há quase duas décadas, desde que entrou para a oficina do bloco, em 2006, e integrou a bateria por cerca de dez anos. Atualmente como foliã, ela mantém uma forte ligação afetiva com o grupo, evidenciada na fantasia feita com retalhos de camisas de edições anteriores do bloco. “É um amor que sempre reaparece no Carnaval”, afirmou. Para Malu, o retorno após um ano sem desfile foi especialmente emocionante. “Pra mim, é o melhor bloco do Rio de Janeiro. Foi muito triste não ter saído ano passado, e voltar agora foi maravilhoso”, completou.
A apresentação deste ano celebrou a trajetória do Bangalafumenga, reforçou suas tradições e transformou o Aterro do Flamengo em um espaço de encontro, música e alegria coletiva. Após três décadas de história, o bloco reafirma sua essência como um movimento vivo, guiado pela celebração, pela música e pela construção de uma identidade única que segue mobilizando gerações de foliões.
Charanga Talismã leva cortejo latino-americano e ocupa as ruas de Vila Kosmos
A pacata Avenida Meriti, em Vila Kosmos, na Zona Norte do Rio, amanheceu diferente neste domingo. Desde antes das 7h, foliões animados coloriram as calçadas para o desfile do bloco Charanga Talismã. Confetes, glitter, perucas e leques deram o tom do cortejo, que teve seus tradicionais pernaltas abrindo o caminho e reforçando o caráter cênico do grupo.
“Nosso primeiro desfile foi na Glória, com um cortejo no Outeiro, mas já existia em nós o desejo de sair do eixo Centro–Zona Sul e levar o bloco para a Zona Norte. É muito importante poder se integrar ao território, às pessoas e à história do bairro. A Charanga sempre pensa o enredo em diálogo com o lugar onde desfila, criando uma conexão verdadeira com a comunidade. Neste ano, falamos da união latino-americana e de temas contemporâneos, conectando música, cena e reflexão no cortejo”, afirmou Yuri Rodrigues Genúncio, diretor de harmonia e um dos fundadores do bloco.
Com o tema “Me Encanta América Latina”, o bloco apresentou um desfile marcado por performances circenses, um potente naipe de metais e a presença de teclado entre os instrumentos, ampliando sua diversidade sonora. O repertório também dialoga com referências contemporâneas, como o cantor porto-riquenho Bad Bunny, reforçando o posicionamento político do grupo. “Vamos tocar Bad Bunny, claro, e isso também reforça o caráter político da Charanga. O bloco sempre teve esse posicionamento, e ele se torna ainda mais relevante em um momento como o atual, em que é fundamental fortalecer nossa identidade como cidadãos da América Latina e como brasileiros”, destacou.
“Minha história com a Charanga começou como folião, há alguns anos. Sempre admirei o bloco pela energia e pelo senso de comunidade, é uma verdadeira família charangueira. No ano passado, recebi o convite para participar como pernalta e aceitei na hora. É muito especial estar com um grupo que tem propósito, que respeita a rua e propõe um Carnaval que vai além do circuito tradicional do Centro e da Zona Sul”, afirmou Matheus Rebel, pernalta do bloco.
Segundo ele, a Charanga também cumpre o papel de ocupar outros territórios e atrair pessoas que normalmente não frequentam a Vila Kosmos, ao mesmo tempo em que estabelece uma forte sintonia com os moradores, que recebem o cortejo com entusiasmo. A proposta é proporcionar uma experiência de encantamento coletivo, valorizando o bairro e fortalecendo a relação entre o bloco, o território e a comunidade.
A integração com os moradores é evidente ao longo do percurso. Muitos deixam suas casas para acompanhar o desfile e se juntar aos foliões, enquanto outros aproveitam o movimento para vender bebidas e comidas, contribuindo para aquecer o comércio local. Há também quem prefira observar a festa à distância, como a moradora Ana Cristina Oliveira, que, ao lado da mãe, Ivete Oliveira, de 83 anos, conversava com um grupo de foliões antes do início do cortejo.
“Eles são ótimos, sempre muito respeitosos com os moradores e com a rua. É um Carnaval que lembra muito os de antigamente, e as fantasias são lindas. Eu costumava acompanhar o desfile no meio deles, mas hoje eu e minha mãe preferimos assistir daqui do portão mesmo”, contou Ana Cristina, moradora do bairro há quase 50 anos.
Blocos ocupam Zona Sul com cortejos e celebrações nas ruas
Na Zona Sul, os blocos Simpatia É Quase Amor, Areia e Laranjada levaram milhares de foliões às ruas em desfiles marcados por celebração e forte conexão com o público.
Em Ipanema, o Simpatia comemorou seus 40 anos com uma homenagem aos povos originários e ao jornalista Marceu Vieira, reafirmando seu caráter político e afetivo. No Leblon, o Areia animou a orla com um repertório leve e praiano, enquanto o Laranjada transformou as ruas de Laranjeiras em um cortejo bem-humorado e participativo, reforçando o espírito do Carnaval de rua carioca.
A programação completa pode ser conferida no aplicativo Blocos do Rio 2026 e no site oficial https://www.carnavalderua.rio/ garantindo que todos os foliões saibam onde e quando a folia vai rolar.
Enviando mensagem...